Serra que Chora, Chico feliz.

Toda semana, desde a primeira coluna, sento-me diante de um computador em algum lugar desta ciclotímica Pindorama  com a firme disposição de falar de alguma coisa boa, algo que  consome quase todo o espaço dos nossos jornais e a nossa esperança.

Não é fácil, creiam-me. Até tenho evitado falar de política para não contradizer a rubrica desta coluna frequentada por tão ilustres colegas. Como deseja um “Bom Dia, São Paulo” e, em seguida, despejar um catatau de coisa ruim, que não falta? Passo a semana toda procurando notícia boa, pensando numa forma de não aporrinhar ainda mais o leitor afogado neste oceano de informações quase sempre catastróficas.

Pois, caro leitor, esta semana tivemos sorte. É verdade que, para chegar até uma notícia boa, peguei seis horas de estrada e muita chuva para vencer a gincana rodoviária ao longo dos 272 quilômetros que separam São Paulo de Itanhandu, no Sul de MInas.

Mas a aventura vale a pena, posso garantir, depois de um fim de semana na Pousada Fazenda Serra que Chora. Para quem leva duas horas parado na Marginal; depois, não encontra um lugar aberto para abastecer o carro na Dutra (com o temporal, faltou luz nos postos); mais adiante, tendo que ir tateando no escuro por caminhos há muito abandonados pelo poder público, chegar, finalmente, à Serra que Chora de madrugada, e ainda encontrar o dono da pousada acordado, esperando a gente com um generoso creme de aspargos, não é mesmo fantástico?

Nem conhecia o dono, Manoel Costa Júnior, um ex-deputado federal por Minas, que há cinco anos largou tudo e se meteu a erguer um paraíso no meio da roça. Ele faz isto com todos os hóspedes, descobri depois, como se fossem seus convidados para um fim de semana em sua casa. Ficamos amigos na hora, ainda mais depois da cachacinha de alambique que, gentil, servia para desligar os motores em alta rotação dos sobreviventes paulistanos que chegavam em busca de um pouco de paz.

Em meio aos 180 hectares da sua fazenda (mais de 80 deles de Mata Atlântica preservada) nas chamadas Terras Altas da Mantiqueira, que abriga oito cidades, aos poucos Manoel foi espalhando galpões, chalés, lagos, pomares, hortas, gansos, carneiros, campos esportivos, histórias e, principalmente, o jeito mineiro de viver com harmonia com a natureza, sem pressa, sem ansiedades tolas.

Tem de tudo lá, até televisão e telefone, mas as pessoas preferem conversar, fazer seu próprio espetáculo, em vez de ficar assistindo. De preferência, ao som de uma viola e do pandeiro do Ivan Quadros, velho companheiro que trocou as redações do Rio e São Paulo pela TV Globo de São José dos Campos, onde nasceu e voltou a morar na casa dos pais, e de onde não pretende mais sair.

Ivan e Manoel, como tantos, deram a volta completa na roda da vida. Tentaram um pouco de tudo, ousaram, casaram e descasaram, tiveram filhos e voltaram às suas origens. Dava gosto de ver os dois, felizes. A gente fica até pensando: qual é o sentido de se correr tanto, não ter tempo nem de ver os filhos crescendo, dar pouca atenção aos amigos?

A pergunta fez-me lembrar de uma amiga, Regina Person, que morava num lugar tão bonito como a Serra que Chora, aqui pertinho. Vira e mexe ela saia de lá para enfrentar o trânsito até São Paulo. Seu então marido, Luis Sérgio, grande cineasta a figura humana, perguntava-lhe: “Por que você tem que ir sempre a São Paulo?” Regina respondia, brincando: “É a ânsia de poder e glória…” Por uma destas desfeitas do destino, foi Luiz Sérgio quem acabou morrendo na BR-116, numa noite, voltando de São Paulo.

Mas eu prometi falar de coisa boa e vou até o fim. Voltando à pousada. Além de Manoel e Ivan, lá estavam nos esperando de madrugada as amigas Marisa e Marília, fiéis companheiras do grupo de oração que criamos há quase vinte anos em torno de um frade voador que todo mundo só chama de Betto (assim mesmo, com dois tês, frescura dele).

Como está sempre em trânsito pelo mundo – Betto foi globalizado quando isto ainda não estava na moda – e onde quer que esteja não abre mão das suas utopias, por maiores que sejam as porradas e as certezas em contrário ao neoliberalismo galopante, nosso frade voador só de raro em raro pode pousar num paraíso terreno como este nos contrafortes da Mantiqueira.

Duas vezes por ano, fazemos um retiro, única forma da gente olhar um pouco além dos problemas do dia a dia e renovar a nossa fé, apesar de tudo. Por falar nisso: não percam o último (quer dizer, mais recente, porque o amigo não para de escrever) livro dele, Entre Todos os Homens, uma espécie de biografia não autorizada de Jesus Cristo, que não li ainda mas minha mulher garante que é ótimo.

É bem bom: rezamos, trocamos experiências, cantamos, damos uma banana para quem acha que o sonho acabou. E fica tudo melhor ainda quando começa a fumegar o fogão a lenha comandado por dona imaculada, uma senhora sempre de bem com a vida, que gosta do que faz e sente prazer em servir os outros. Servir de tudo: carneiro ensopado, vaca atolada, trutas na manteiga, pizzas, feijoada, cassoulet, sopas e doces variados, o que o leitor puder imaginar que tem de bom, feito com esmero.

O jornal de domingo ficou esquecido em cima da mesa. Estava tudo bom demais pra gente se confrontar com a realidade e lembrar que, segunda feira, começa tudo de novo.

(Extraído do Jornal Popular, página 9 – Coluna do jornalista Ricardo Kotscho)